Transeunte tautológico

A somatória de nossos movimentos em direção às coisas formam o incomensurável conjunto de ações que empreendemos e repetimos ao longo da vida, obstinadamente, inclusive como condição para a sua continuidade. Da necessidade ao esforço, do repouso à ação, do intuito à execução, praticamente a todo instante estamos nos mobilizando, seja para buscar um copo d’água na cozinha assim que acordamos, seja para encontrar, ávidos de saudade, um amigo no aeroporto, seja ainda para redigirmos um texto como esse ou cumprirmos nossas jornadas de trabalho. Ou, num sentido mais amplo, para delinearmos a nossa presença no mundo, negociando com suas circunstâncias e contingências.

O ato do deslocamento – com a aceleração que lhe é característica em nossos dias, em que o repouso funciona como mero intervalo entre nossas ininterruptas andanças – opera de forma decisiva na vida diária dos citadinos, representando em si mesmo um emblema do nosso ímpeto de alcance. Tais deslocamentos traduzem-se em percursos quase sempre atrelados à necessidade cronometrada de se chegar a um destino, como, por exemplo, o itinerário que nos conduz até o local de trabalho ou o trajeto em direção à sala de cinema, cuja sessão tem hora marcada para começar e terminar.

Este nomadismo rotineiro e programado, que se desenvolve de modo repetitivo e circular, parece sempre carente de um repertório simbólico que proporcione a sua reflexão, dado o seu ritmo frenético e a sua natureza compulsória. Neste sentido, a invenção de um vocabulário visual específico surge como possibilidade poética para este transeunte tautológico que aqui escreve.

No presente trabalho, o próprio movimento do corpo pelo espaço urbano, bem como a miríade de signos que o povoam, acabam por fornecer os elementos necessários à constituição de um repertório de ícones em diálogo com o nomadismo supracitado. Neste sentido, a percepção, o registro e a reorganização do que é selecionado ao longo dessas trajetórias alimentam uma produção visual que se pretende espelho crítico do elementar ato de ir em direção a algo.

O que se vê neste Catálogo de estampas, portanto, são caracteres de um vocabulário visual em permanente processo de formação, elaborado em simultâneo às idas e vindas de seu autor pelas ruas, avenidas, estações e linhas de trem e metrô, terminais de ônibus, aeroportos, rodovias, elevadores, escadarias, corredores e tantas outras zonas de passagem que atravessamos sempre e sempre.

Diogo de Moraes
2014