O som como matéria para processos coletivos

Ultra-red investigação militante & protocolos de escuta
Ricardo Basbaum conversas-coletivas & performação vocal do texto

Data: 28 de outubro de 2017
Local: Museu Lasar Segall

O agenciamento de processos coletivos e a correlata constituição de grupos autônomos de trabalho correspondem a procedimentos correntes nas práticas culturais contemporâneas. No campo das artes visuais, tais situações são deflagradas tanto pelas operações de artistas como pelas iniciativas de educadores e mediadores, em ambientes mais ou menos institucionalizados, ensejando a formação de microesferas públicas temporárias.

Esse aspecto comum entre áreas de ação distintas favorece passagens e intercâmbios entre elas. Logo, possibilita que seus agentes tomem de empréstimo e lancem mão de ferramentas e modos de fazer desenvolvidos "do lado de lá" de seus lugares originários de atuação, inventando plataformas e protocolos a partir desses deslocamentos e entrecruzamentos.

Como sugere a “virada educacional” (educational turn), vigente no contexto internacional da arte contemporânea a partir da segunda metade dos anos 1990, as proposições artísticas (e curatoriais) vêm emprestando dos educadores e mediadores um saber-fazer relacionado à pedagogia crítica, ao compartilhamento de saberes e à aprendizagem mútua. Vislumbrando o movimento inverso, intentamos propor que a educação e a mediação se associem aos processos de elaboração conceitual e simbólica concebidos pelos artistas, para a partir deles desenvolver suas próprias estratégias, vocabulários e formas de documentação e tradução, com vistas a delinear experiências pedagógicas e mediativas aptas a se desdobrarem para além dos seus locais e instantes imediatos de ocorrência.

Em certo sentido, é o que acontece quando tratamos da “medição como prática documentária”, noção cunhada pelo pesquisador e mediador Cayo Honorato para designar um tipo de mediação ocupada, além das vivências coletivas e das afetações e aprendizagens aí em jogo, da utilização de suportes e linguagens hábeis em documentar e fazer circular (em outras temporalidades e contextos) experiências interpessoais e sociais efêmeras, geralmente ancoradas em problemáticas político-culturais específicas.

Mas antes de seguir com as possibilidades abertas por esses contágios recíprocos, mostra-se necessário fazermos uma digressão sobre o quadro cultural brasileiro inaugurado na última década do século passado. Coincidindo temporalmente com a “virada educacional”, observa-se no cenário institucional do país a implementação de um arco de iniciativas direcionadas à democratização do acesso à arte, o que se dá com a ampliação e o reposicionamento dos departamentos educativos nas instituições culturais. Tais iniciativas se processam no bojo da consolidação das políticas neoliberais no Brasil – período em que, por exemplo, o Ministério da Cultura do governo FHC (1995-2002) publica a cartilha Cultura é um bom negócio, voltada à classe empresarial. O arranjo político-cultural então adotado alavancará, entre outras coisas, a profusão de grandes exposições midiáticas (blockbusters), hábeis em atrair enormes contingentes de público. Sua quantificação e divulgação adquirem centralidade na avaliação do “sucesso” das mostras.

Esse arranjo beneficiará, principalmente, as empresas e a gestão de suas marcas (branding). Através das leis de incentivo à cultura, elas passam a gozar da prerrogativa de praticar marketing cultural com recursos públicos, mediante a dedução de seus impostos. Essa mesma lógica promoverá a intensificação das ações educativas institucionais, cujos programas serão delineados em conformidade com os compromissos assumidos junto às empresas “financiadoras” dos projetos, num momento em que a “responsabilidade social” adquire peso estratégico para a credibilidade das corporações.

A sistemática e vultosa arregimentação de visitantes escolares representa o principal instrumento desse empreendimento corporativo-educacional. Provém daí um tipo de curadoria pedagógica que, apesar de propagandear a importância do “diálogo”, desenvolve-se de forma unidirecional, apoiando-se na máxima do “poder transformador da arte” – sempre voltado ao outro, na condição de não iniciado. Assumindo tal pressuposição como lema, essa tendência educacional hegemônica se imbuirá da “formação de público” em larga escala, catalisando números, produzindo imagens e propagando discursos de forte apelo (publicitário) junto aos parceiros institucionais e à opinião pública.

De nossa parte, entendemos ser necessário colocar essa máquina pedagógica entre parênteses, a fim de problematizar suas agendas e modus operandi, inclusive como forma de nos desvencilharmos deles. Como mediadores afeitos a transitar pelas instituições culturais de maneira ziguezagueante (por dentro e por fora de seus limites), procuramos conceber os processos mediativos e educacionais em chave decididamente alternativa, tomando distância de pautas apriorísticas e instrumentalizadoras da participação do outro. Envolvidos com as (e não pelas) dinâmicas institucionais há mais de uma década, constatamos que essas pautas são, em muitos casos, estranhas às experiências efetivamente dialógicas e multidirecionais – em que as instituições topassem lidar com os antagonismos surgidos do diálogo aberto com os públicos, aprendendo a partir deles. Parece-nos que, quanto mais a mediação se concentra em democratizar o acesso aos bens culturais chancelados como legítimos pelas instituições, distribuindo para muitos aquilo que é produzido por poucos, mais ela se distancia das exigências da democracia cultural. De acordo com Honorato, essa outra perspectiva demandaria, para além do acesso, a articulação entre muitos daquilo que também é produzido por muitos.

Por isso a nossa disposição em gerar outros marcos e precedentes para a mediação cultural, liberando-a de certos compromissos e amarras institucionais, os quais, em nossa avaliação, limitam sobremaneira as suas potencialidades, em particular as de caráter contra-hegemônico. Esse movimento em fuga, dissidente em sua intencionalidade, abre-nos caminho para conceber a mediação como prática cultural específica de agenciamento e articulação de situações, afetações e saberes. Portanto, avessa a uma posição secundária e meramente distributiva dos sentidos e propósitos definidos a priori por outras instâncias e agentes do circuito artístico-institucional (curadores, artistas, gestores, relações públicas, captadores de recursos etc.).

Apostamos que, neste caso, o “pulo do gato” surja da propensão dos mediadores, já não para reiterar as certezas imputadas à arte e ao seu poder de transformar o outro, mas para sondar algo que não se sabe de antemão, manifesto justamente no tempo de interação com esse outro, com tudo o que há de contingente e incerto nessa relação. Por conseguinte, algo que abdique da pressuposição dos seus efeitos no outro. Referimo-nos a investigações e experiências que combinam dispositivos mediativos e artísticos, compartilhando-os com o outro com o propósito de constituir coletividades sustentadas por desejos e premências manifestos no tempo da convivência e do trabalho comum, mais do que por conhecimentos dados de antemão (oferecidos como commodities pelas instituições culturais). Caberia, portanto, conferir consequência àquilo que emerge durante esses momentos, no sentido de produzir continuidade às linhas de força que aí se anunciam.

Cultivando estados de permeabilidade/atenção aos sons propagados no ambiente e articulados pelo outro – chamamos isso de “escuta” –, a pesquisa sonora apresenta-se como um lugar de investigação notadamente propício aos nossos intentos. Pautadas por protocolos pensados para favorecer enunciações distribuídas, recepções mútuas e composições conjuntas, as práticas sonoras aqui enfocadas delineiam, cada qual a seu modo, situações de grupo nas quais as tradicionais dicotomias “fala/escuta”, “atividade/passividade” e “conhecimento/ignorância” se desierarquizam para abrir espaço à emergência de novas agendas e novos modos de instituir – algo que nos diz respeito diretamente, haja vista a nossa busca por construir outros parâmetros e “contratos” entre a mediação e as instituições culturais.

É nesse campo de problemas, possibilidades e contágios que se inscreve a jornada O som como matéria para processos coletivos. Procurando atrair, por um lado, mediadores e educadores interessados pelas práticas sonoras de documentação e tradução e, por outro, artistas preocupados com as dimensões social e pedagógica de seus fazeres, convidamos o coletivo Ultra-red (representado por Chris Jones, um dos membros do grupo, e intermediado por Cristina Ribas, uma das interlocutoras brasileiras do coletivo) e o artista Ricardo Basbaum para uma imersão baseada em processos coletivos que têm na gravação e reprodução sonoras o seu expediente-chave. Assim como os artistas, mediadores e educadores, a jornada também pretende atrair militantes de movimentos sociais, uma vez que os procedimentos em questão se mostram propícios à organização e à publicização de diferentes lutas.

Interessa-nos sondar as intersecções entre os protocolos de escuta do Ultra-red (https://bit.ly/2ueh4uA) e as conversas-coletivas organizadas por Basbaum (https://bit.ly/2IKV3H9), uma vez que ambos têm em comum não apenas o fato de se dedicarem à formação temporária de grupos, como também o fazem a partir do som e de seus potenciais investigativo, discursivo e performativo. Mais do que isso, percebemos em tal aproximação a oportunidade de fomentar experiências no campo da mediação cultural, particularmente em sua vertente documentária e extrainstitucional. Daí que as intersecções não se limitem às trajetórias dos convidados, podendo também se manifestar em relação às práticas mobilizadas (ou imaginadas) por aqueles que integrarão o encontro na condição de público.

É importante mencionar, ainda, que o nosso lastro para a organização desta jornada provém, principalmente, dos debates e iniciativas em curso no Mediação Extrainstitucional, um ambiente discursivo de agrupamento auto-organizado, a partir do qual procuramos atuar com base em compromissos menos atrelados a agendas institucionais (pré-definidas) do que a demandas de diferentes comunidades e públicos (emergentes), inclusive daqueles que venham a se aglutinar em torno de situações agenciadas, de forma espontânea, pelos atores desse agrupamento. A presente jornada resulta de tal movimento.

Concebida como uma iniciativa extrainstitucional, a jornada viabiliza-se financeira e logisticamente mediante a costura de parcerias, mais ou menos formais, entre nós, o coletivo Ultra-red, a artista e articuladora Cristina Ribas, o artista Ricardo Basbaum, a Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo e o Museu Lasar Segall.

Diogo de Moraes e Elaine Fontana
Setembro de 2017