Episódios contrapúblicos

PERIFERIA É CULTURAL
maio de 2013

No pós-visita a uma exposição, alguns alunos da Caminhar se reuniram espontaneamente e puseram-se a fazer um mapa do bairro onde está localizada a ONG, destacando lugares, pessoas e esquinas que julgavam significativos. A exposição visitada dias antes, na região central de São Paulo, trazia um trabalho do artista Vitor Cesar com a expressão CENTRO É CULTURAL em neon. Acharam que o termo podia ser desdobrado em PERIFERIA É CULTURAL - fizeram inclusive umas camisetas com essa afirmação estampada. Aí pegaram no telefone e entraram em contato com o núcleo educativo da tal exposição, convidando os mediadores para uma visita ao bairro, tendo como roteiro inicial os pontos mapeados.

PÊSSEGO EM CALDA
outubro de 2013

Foi durante uma visita mediada à mostra 30 x Bienal, com um grupo de pré-adolescentes da rede pública do ensino, que estiquei meus ouvidos de visitante bisbilhoteiro e me pus a escutar, a média distância, a conversa entre os estudantes e a educadora da exposição - uma jovem estagiária segundanista de graduação. O assunto naquele momento era o trabalho do artista Waltércio Caldas. Um dos garotos, sem pedir licença e desviando totalmente o rumo do papo, lançou a seguinte questão: “A Bienal é de quem? Quem banca essa exposição?”. Pega de surpresa, e buscando se situar diante da pergunta, a educadora buscou traduzir para si e para o restante do grupo a indagação do garoto: “Você quer saber de onde vem o dinheiro que paga toda essa estrutura, e a quem pertence a Fundação Bienal?”. Ao que o garoto respondeu de forma decidida: “Isso, isso mesmo!”. Foi quando a voz e os gestos da educadora-estagiária começaram a dar sinais de embaraço. Balbuciando, ela tentou responder: “Então... essa é uma boa pergunta... veja bem, a Bienal é uma instituição... humm... que pertence a... bem, está ligada ao... ou melhor... ah, eu não saberia te dizer ao certo... já os seus recursos vêm... humm... precisaria falar com minha supervisão para saber...” Quando então o garoto atalhou: “Então tá, enquanto eu não souber direito como funciona esse lugar, e por quem ele é bancado, eu me recuso a conversar sobre esse tal pêssego em calda”.

VIDEOCRIATURAS
março de 2014

E não é que aquele casal do 8°C da E. E. Álvaro de Lima Campos, ao topar com um filminho retrospectivo das videocriaturas em um chuvoso domingo de muita pipoca e youtube, conseguiu pelo facebook o contato do artista Otávio Donasci e lhe pediu uma mãozinha pra concretizar um insight surgido naquele mesmo instante: Mi e Lu tiveram a ideia de se vestir de videocriaturas por ocasião de uma visita com a turma da escola a um museu de arte, que ocorreria dali duas semanas. Pensaram que seria um momento e um lugar propícios para mostrar a série daqueles videozinhos de celular que vinham registrando há uns cinco meses, com cenas de casais (das mais diversas orientações) se pegando nas ruas e baladinhas do Arouche. Até porque, na exposição que seria visitada, os estudantes encontrariam obras dos séculos XIX, XX e XXI acerca do desejo e da sedução, segundo a descrição da professora. Após resposta positiva do Donasci, não tiveram dúvida: visitariam a exposição trajados de videocriaturas, exibindo seus vídeos aos colegas e aos demais visitantes do museu.

TRÊS LATAS DE SPRAY
novembro de 2011

Correu o boato pelos corredores do principal colégio de Bentonville (EUA) de que um aluno, ao ser sorteado para uma visita ao concorridíssimo Crystal Bridges Museum, deu um jeito de vender o seu bilhete a um colega. Negociado por 15 dólares, o dinheiro do ingresso foi usado pelo garoto para comprar três latas de spray.

VISITA EXCLUSIVA PARA PROFESSORES
setembro de 2014

A Diretoria de Ensino Leste 2 havia circulado entre as escolas de sua rede a informação de que a Bienal de São Paulo - cuja inauguração de sua 31ª edição se daria dali algumas semanas - estava oferecendo visitas orientadas exclusivas para professores, antes que a exposição fosse aberta ao público em geral. Ao receber a circular, Rosana G., professora temporária de História, percebeu nessa nobre oferta cultural uma ótima oportunidade para amplificar as insatisfações dela e de muitos outros professores que se encontram na mesma situação de precariedade profissional. Redirecionou o e-mail para o grupo formado no yahoo groups, chamado Professores Temporários do Estado de São Paulo, acrescentando o seguinte cabeçalho ao elegante convite eletrônico institucional: “Colegas professoras(es), temos uma caixa de ressonância à nossa disposição. A Bienal de São Paulo se preparou para nos receber (em visita exclusiva!). Vocês viram? Proponho fazermos dessa visita um estardalhaço a ecoar pra muito além dos limites do Parque do Ibirapuera. Estou combinando com o meu companheiro, que é assessor de imprensa freelancer, de fazermos a informação de mais essa manifestação chegar com a devida antecedência às redações dos veículos de imprensa. Conclamo a todas(os) para esta visita-protesto, a ser realizada no dia 4 de setembro, às 15h. Levem suas faixas, camisetas e cartazes!”.

PREFERIRIA NÃO
dezembro de 1953

Parecia um sujeito matuto. Além da fisionomia, seus modos e trajes denunciavam sua condição de recém-egresso da roça. Um caipira, cochichavam alguns. Caiu de paraquedas naquele que seria um marco das comemorações do IV Centenário de São Paulo: a cerimônia de inauguração da 2° Bienal do Museu de Arte Moderna de São Paulo. Tinha ido ao Parque Ibirapuera sozinho, sem qualquer objetivo explícito. Ao notar a multidão aglomerada diante de um dos pavilhões - o das Nações - resolveu se aproximar. Supôs que o portão de acesso estivesse prestes a ser aberto, dada a grande quantidade de gente e a inquietação daquele enxame. Sentou-se numa mureta próxima e, pitando seu cigarro, ficou observando e achando graça naquele espetáculo que, sem o saber, o público protagonizava. Dali quinze minutos o portão foi aberto. As pessoas entravam afoitas, aos montes, sequiosas pelo que havia de mais avançado no campo das artes plásticas. O rapaz permaneceu ali por mais de uma hora, sem esboçar qualquer movimento ou intenção de entrar no pavilhão. Foi quando o motorista do patrono Ciccillo Matarazzo, um nortista generoso, se dirigiu ao anônimo com a proposta: "se quiser entrar eu posso lhe arrumar um convite e um paletó...". Ao que o rapaz respondeu com insolência: "preferiria não".

FURTO
novembro de 2008

Pelo que disseram, ela já vinha frequentando o centro cultural da Vergueiro há pelo menos um ano. Era fissurada por aquela dança pop coreografada que as meninas geralmente performam diante de grandes superfícies espelhadas, num jogo de exibição fundido com auto-observação. Usavam para essa prática semanal, normalmente às quintas, uma parede de vidro do CCSP que, por conta do fundo escuro daquela parte do edifício, refletia bem as imagens dos corpos púberes em movimentos calculados. Um dos banheiros do piso Flávio de Carvalho servia como uma espécie de camarim, mas naquele dia estava em manutenção. Aliás, todos os banheiros daquele piso estavam interditados em virtude de um problema hidráulico, conforme dizia o informativo colocado na porta de cada um deles. Foi por esse motivo que ela subiu a rampa para usar o banheiro do piso Caio Graco. Já pronta, decidiu dar uma rápida olhada nas exposições em cartaz naquele piso, quando topou com uma série de desenhos narrativos de pequenas dimensões, fixados na parede por presilhas de escritório. Um lhe chamou especial atenção: havia a figura desenhada de um homem vestido com camisa social de manga curta e, logo abaixo, a expressão "equilibrista". O pai da garota, eu soube depois, era alcoólatra. A leitura que fizera do desenho naquele instante, conforme anotou em seu blog, articulava a experiência oscilante do pai com a condição de "equilibrista na vida" da figura desenhada. Olhou para os lados e, vendo o entorno vazio de visitantes e livre de vigilantes, não teve dúvida: arrancou o desenho da parede, o meteu no bolso e desceu pra dançar.

DEVIR-DINOSSAURO
setembro de 1996

Aquela imensa mostra de ciência sediada no Anhembi - patrocinada por uma gigante da indústria farmacêutica - despertou o interesse do grande público, fazendo afluir para o pavilhão centenas de milhares de curiosos. Réplicas e ossadas de animais pré-históricos, algumas delas vindas do American Museum of Natural History (NY), aterrissavam por essas plagas na esteira deixada pelo filme de Steven Spielberg, Parque dos Dinossauros. Os canais de TV usavam a exposição como uma privilegiada plataforma de promoção de marcas e ideologias, gravando com frequência entrevistas hiper-dirigidas com um público embevecido, em sua maioria formado por famílias. Ao abordar uma dessas famílias no corredor central (abarrotado) da exposição, um reporte histriônico, com o microfone em riste, gritou a pergunta para a menina caçula: "o que você aprendeu aqui sobre os dinossauros?". Foi o suficiente pra que a menina lhe cravasse os caninos na mão, emitindo na sequência um rugido insondável.

PRÁTICA POÉTICA
maio de 2006

Foi no contexto de um projeto educativo da Pinacoteca do Estado de São Paulo, voltado a segmentos socialmente vulneráveis do público do entorno, que um grupo de prostitutas do Parque da Luz passou a frequentar semanalmente, durante duas horas nas manhãs das terças, o acervo de obras daquela instituição, mediante visitas orientadas seguidas de diferentes práticas poéticas conduzidas pela equipe de mediadores da ação educativa. Durante uma dessas visitas, Jane e Cris se desgarraram do restante do grupo e entraram na loja do museu, onde puderam folhear uma variedade de publicações de arte. Nesse descompromissado manusear toparam com o livro Atlas Ambulante, organizado pela dupla Renata Marquez e Wellington Cançado, que trazia os detalhes e saberes de uma série de profissões de rua de Belo Horizonte. Jane, a mais inquieta, comentou em voz alta: "esse livro só não é perfeito porque esqueceu de incluir nossa profissão". Foi a percepção dessa lacuna que despertou em Cris uma ideia: "já sei, e se a gente fizesse um livrinho, durante essas tais 'práticas poéticas' que o pessoal daqui tanto insiste pra gente participar, sobre o que é ser puta?" Num misto de empolgação e incredulidade, Jane emendou: "sim, e podemos inclusive bater na porta da Imprensa Oficial para publicá-lo".

AÇÕES ATIVADORAS
janeiro de 2014

Em sua 18º edição, o Festival Videobrasil: Panoramas do Sul agregou à exposição os chamados Programas Públicos. Entre outras frentes, os programas incluíam ações ativadoras realizadas no ambiente da exposição. Neste contexto foi concebida a ação intitulada Público, pela artista Carolina Mendonça, uma performance desempenhada em diferentes momentos da exposição por atores contratados e dirigidos pela artista. Em linhas gerais, a ação traduzia-se na abordagem feita pelos atores - que em princípio se portavam como público da exposição - junto aos visitantes desavisados da ocorrência daquela performance, que os tinha como destinatários. Ao aproximar-se discretamente de um ou mais visitantes, o ator vocalizava a sentença: “é uma visão comum hoje, que no momento em que nós nos percebemos em público, senão antes disso, uma vez que somos seres sociais desde o início, nós nos transformamos em performers performando nós mesmos diante de outros”. Imbuído desse script, um dos atores mirou no fundo da sala expositiva, próximo às pinturas da artista Ana Prata, um trio de freiras. Ficou excitadíssimo com a oportunidade que tinha a apenas vinte passos de onde se encontrava. Não fazia a menor ideia do por que uma das freiras, a mais velha, permanecia diante do retrato d’O Russo há mais de dez minutos. Não tinha como saber que a freira associara a feição pintada do russo com a do padre Fernando Bastos de Ávila (falecido em 2010) e que, por isso, orava em silêncio e em pé diante da pintura, sem qualquer afetação litúrgica. Quando o ator se aproximou dela e desatou a dizer em voz alta a frase “é uma visão comum hoje”..., foi prontamente interrompido pelas outras duas freiras, que lhe deram um pito: “psiu! não lhe ensinaram que exposição é lugar de silêncio!?”

ARTOUR
setembro de 2014

Seu nome é Arthur. Está com um ano e três meses de idade, mas podemos supor que já caminhou mais do que muita criança de dois anos, dada sua perceptível tendência ao nomadismo. Frequenta com sua mãe, nas manhãs de segunda-feira, o parque Luis Carlos Prestes. É curioso o fato de Artour tratar o playground - apesar do seu gira-gira, trepa-trepa e balanço - como uma zona de pouco interesse, manifestando, por outro lado, forte ímpeto por alcançar e frequentar pontos que se situam nos arredores dessa área supostamente propícia ao divertimento infantil. Em suas incansáveis perambulações pela periferia do playground, Artour geralmente vaga em sentidos multidirecionais, buscando balizas territoriais contraindicadas para crianças de sua idade: a escadaria que leva do segundo platô (onde está o playground) ao primeiro, o portão de acesso à rua, certos nichos junto à mata semi-virgem e a torneira usada pelos cães.

Publicado em Revista Urbânia 5 - Educação. Editoras: Graziela Kunsch e Lilian L'abbate Kelian. Projeto gráfico: Vitor Cesar com Frederico Floeter